Mielopatia Cervical – Dr. Roger Schmidt Brock

Como todos os demais órgãos do corpo humano nossa coluna envelhece. Durante esse processo de envelhecimento, também chamado de degeneração, os discos intervertebrais perdem altura, desidratam, as articulações facetárias sofrem um processo de artrose e existe a formação de osteófitos, protuberâncias ósseas junto ao disco intervertebral. O conjunto dessas alterações pode levar a uma diminuição do canal vertebral, espaço por onde passa a medula espinhal. A medula é parte do sistema nervoso central, responsável por levar a informação do encéfalo para o corpo. Em algumas pessoas este estreitamento do canal vertebral leva à compressão da medula espinhal e consequente perda de função. Os sintomas decorrentes da compressão da medula espinal pelo processo degenerativo da coluna é denominado mielopatia espondilótica cervical. 

Pacientes com mielopatia cervical podem apresentar enrijecimento da musculatura, denominado hipertonia,  principalmente das pernas, dificuldade para a marcha e para manipular objetos, perda de força muscular e de sensibilidade nos quatro membros. Alterações neurovegetativas, como dificuldade para reter urina, ou dificuldade para início da micção também podem estar presentes. Dor nem sempre está presente. Pacientes podem queixar=se de sensação de choque, queimação e formigamento com irradiação para os membros superiores. Uma banda de hipersensibilidade cutânea (hiperpatia) é achado frequente. A evolução dos sintomas costuma ser lentamente progressiva, podendo ocorrer episódios de piora mais aguma, principalmente relacionados a pequenos traumatismos.

O diagnóstico é realizado através do exame neurológico o qual pode evidenciar perda de força muscular, alteração de sensibilidade térmica e dolorosa, alteração de sensibilidade profunda determinando alterações do equilíbrio e aumento dos reflexos (hiperrreflexia). O exame complementar mais indicado é a ressonância magnética a qual irá evidenciar a presença da compressão medular. Radiografia simples em flexão extensão pode determinar a presença ou não de instabilidade da coluna assim como seu alinhamento correto.  Por vezes necessário a realização de tomografia da coluna para averiguar a presença de calcificações do ligamento longitudinal posterior que possam contribuir com os sintomas e interferem na melhor escolha do tratamento.

Na presença de sintomas neurológicos importantes está indicado tratamento cirúrgico para descompressão da medula e prevenção da piora dos sintomas neurológicos, evitando assim comprometimento e sequelas neurológicas. O tratamento cirúrgico tem por objetivo parar a progressão dos sintomas os quais muitas vezes não revertem completamente mesmo após descompressão bem sucedida. Reabilitação multidisciplinar pós operatória com fisioterapia e terapia ocupacional é fundamental para obtenção de melhores resultados. A exceção de pacientes idosos com sintomas leves sem progressão, ou aqueles com alto risco cirúrgico, os pacientes com sinais clínicos de mielopatia devem ser submetidos a cirurgia. Estima-se que metade dos pacientes apresentarão piora dos sintomas em 4 anos, além de apresentarem maior risco de quedas e internações hospitalares mais frequentes. A simples alteração de imagem e ressonância magnética, mesmo com sinais de compressão medular e mielopatia, porém sem sinais e sintomas neurológicos não indica tratamento cirúrgico devendo paciente ser acompanhado por um especialista. 

A indicação e o tratamento cirúrgico da mielopatia cervical deve ser realizada por profissional capacitado especializado em cirurgia de coluna e consiste na descompressão da medula através do aumento do espaço do canal medular associado a estabilização e alinhamento da coluna cervical. A extensão e a melhor forma para realizar tal descompressão deve ser realizada de forma individualizada de acordo com as alterações encontradas nos exames de cada paciente. A cirurgia pode ser realizada por via posterior, denominada de laminectomia, ou por uma via anterior através da remoção dos discos ou até do corpo vertebral. Em algumas situações faz-se necessário a estabilização da coluna através da utilização de instrumentais como placas e parafusos em titânio. Embora bastante segura existem riscos de complicações. Nas cirurgias por vir anterior pode ocorrer dificuldade para deglutição e alteração da voz na maioria das vezes de forma transitória. Nas cirurgias por via posterior dor cervical e infecção de ferida são as complicações mais frequentes. A cirurgia quando realizada por profissional experiente é segura com o risco de complicação neurológica em menos de 1% dos pacientes.