Histórias de vida: Neurocirurgiã conta trajetória de obstáculos, desafios, realizações e aprendizado

Meu nome é Diana Lara Pinto de Santana, nasci no Rio de Janeiro e fui criada em Salvador – BA. Tenho 35 anos, sou filha de um maestro e uma pedagoga e neta de avós semialfabetizados. Desde criança sabia que iria ser médica e iniciei a minha formação em medicina na Universidade Federal da Bahia. Ao longo da minha formação, sempre tive grandes exemplos de profissionais da neurologia e neurocirurgia que acabaram incentivando a minha escolha de especialidade. Durante a nossa trajetória de vida, exemplos são fundamentais para a construção da nossa carreira.

Tive a oportunidade de participar de vários projetos de pesquisa, extensão e monitoria neste período, o que também me ajudou a desenvolver habilidades voltadas para o ensino e a ciência. Além do desenvolvimento do meu conhecimento médico, o período universitário foi um momento crucial para a minha participação de forma ativa no construção coletiva social. Como representante discente da Congregação da Faculdade de Medicina da Bahia, durante quase toda a minha graduação pude ter contato com os processos decisivos da minha universidade, estabelecendo uma ponte entre as necessidades dos estudantes e as demandas da faculdade. Foi um período de muito aprendizado em todos os aspectos da minha vida.

Ainda durante o curso universitário tive a oportunidade de fazer dois estágios fora do Brasil, o que mais uma vez foi uma enorme fonte de conhecimento. Morar sozinha em países com línguas e culturas diferentes foi realmente desafiador, mas como dizemos por aí, fui aprendendo a “me virar” e a conquistar o meu espaço. Após a graduação, iniciei a minha residência médica em Neurocirurgia no Hospital Getúlio Vargas em Recife – PE, no entanto, em menos de um mês, recebi aprovação para realizar a residência na Universidade de São Paulo (USP).

A residência foi outro grande passo na minha vida. Desde o meu início no Hospital Getúlio Vargas, com colegas extremamente acolhedores e Staff, principalmente, composto por mulheres, me senti totalmente em casa e muito feliz em fazer parte de uma equipe em que as mulheres eram respeitadas e tinham o seu espaço não só no corpo clínico, mas também nos cargos de chefia – isso só reforçou a ideia que sempre tive de que lugar de mulher é onde ela quiser e este lugar pode e deve ser na neurocirurgia.

Após este breve período com pessoas tão maravilhosas, foi a vez de ir para o maior serviço público da América Latina – o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Era um sonho realizado! Fui a primeira mulher de fora da USP a fazer residência em neurocirurgia nesta “casa” e acredito ter aberto as portas para várias outras que entraram depois de mim e estão trilhando brilhantemente a sua trajetória.

Se a minha graduação foi um período de desafios e aprendizados, a minha residência médica foi tudo isso multiplicado por 100. A rotina é realmente extenuante, porém sempre digo que foi um processo compensador. Foi um momento especial no qual me senti acolhida pelo meu Staff. E ressalto, ainda, que não fui preterida por ser mulher, por ser de fora da casa, muito menos por ser preta. Sempre agradeço a todos que auxiliaram a minha formação, incluindo a equipe de enfermagem e multidisciplinar, que me orientaram nos cuidados com os pacientes e que também me levavam uma “comidinha” na hora da fome. E sou muito grata também aos colegas que participavam junto comigo desta “batalha”, aos meus professores que sempre estavam disponíveis para dar auxílio na obtenção de habilidades e conhecimentos, e, principalmente, aos pacientes, que num momento de extrema fragilidade se deixavam ser cuidados por mãos pouco experientes, mas por uma residente com grande coração.

Após o término da residência médica, já dei início à minha vida profissional na Neurocirurgia. Como todo jovem recém-formado, dei plantões em hospitais públicos, com vínculos precários, porém, logo que pude, fiz um concurso público para garantir um melhor vínculo profissional. Trabalho a maior parte do meu tempo no serviço privado, nos dois mais conceituados hospitais do país, o que de certa forma é bom e ruim; bom, por que temos acesso à tecnologia de ponta, à rapidez na realização de exames complementares, além de estarmos cercados por uma excelente equipe multiprofissional para dar a assistência integral aos nossos pacientes; ruim, pois cada vez mais vemos um sistema refém de planos de saúde, que não respeitam as codificações propostas pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), que não respeitam a nossa tabela de honorários, que querem negociar os nossos anos e anos de formação com “pacotes impostos”, não discutidos previamente com os médicos, dentre diversos outros problemas que vemos no nosso dia a dia.

Apesar da vida profissional intensa, é imprescindível nunca deixarmos de nos preocupar com nossa formação continuada. No momento estou fazendo doutorado na USP, visando continuamente à aquisição de conhecimento para melhoria dos cuidados com os nossos pacientes. Como sempre fui uma pessoa atuante no compromisso com a construção coletiva, hoje faço parte também da Comissão de Mulheres da SBN, sou Delegada da Capital da Associação Paulista de Medicina e concorro a uma vaga como Conselheira no Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo – sempre em busca da defesa da nossa profissão e em defesa, também, das mulheres no mercado de trabalho, dos nossos pacientes, tanto no setor público quanto no privado, e na luta contra a discriminação racial.

Agradeço enormemente à SBN pela oportunidade de relatar um pouco da minha história de vida e quem sabe, de certa forma, isso ajude a inspirar outras mulheres a seguirem sempre em busca de seus sonhos.

Por Dra. Diana Lara Pinto de Santana