Ângelo Barbosa Monteiro Machado – Um adeus a um ser humano de incríveis formações e incontáveis capacidades


Ângelo Barbosa Monteiro Machado

22/05/1934 – 06/04/2020

Um adeus a um ser humano de incríveis formações e incontáveis capacidades

Na manhã da última segunda-feira, 06 de abril de 2020, nos despedimos do Dr. Ângelo Barbosa Monteiro Machado, médico, professor, entomológo e ambientalista que, aos 85 anos, faleceu após sofrer parada cardíaca. Um grande profissional, cuja inquietação e curiosidade o levaram a incessantes pesquisas, descobertas e significativa contribuição para as áreas em que atuou. 

Seu pensamento está eternizado em mais de 50 livros que escreveu para dividir o seu conhecimento, sobretudo com crianças e adolescentes, publicações que lhe renderam premiações, como o Prêmio Jabuti de Literatura Infantil, em 1993. Suas palavras acompanharão os estudantes de medicina, por seu livro Neuroanatomia Funcional, de leitura obrigatória na graduação, além de estudos sobre o sistema nervoso central. Dr. Ângelo também se destacou como o maior colecionador de libélulas na América do Sul, com mais de 35 mil exemplares, doados à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde atuava. 

Quem o conheceu de perto relata o ser humano profundo que ele foi e a falta que fará. Infelizmente, devido a pandemia do coronavírus que assola o mundo, não foi possível a realização de um velório com as honrarias merecidas. À família, nossos mais sinceros pêsames. 

Abaixo, o depoimento do colega Dr. Arthur Adolfo Nicolato, Neurocirurgião e Professor de Anatomia Humana da UFMG e Faculdade de Minas (FAMINAS):

Muito além do conhecimento técnico, especialmente nas áreas de ciências morfológicas e zoologia, o professor Ângelo Machado foi profundo conhecedor do ser humano, suas necessidades, vaidades e prazeres. Ele utilizou esse conhecimento com maestria incomparável fazendo seus alunos, discípulos e admiradores atraírem-se magneticamente por sua presença sempre deleitando-se pela astúcia e humor constantes em sua expressividade. 

Por isso, quando nos lembramos do professor nesse momento de transição e dele nos despedimos, sofremos um agravamento da abstinência de nossa interação social em tempos de quarentena. O professor Ângelo Machado sempre encheu salas de aula, teatros, lançamentos de livros e inequivocamente sua casa de pessoas. Era impossível não desejar estar com ele e ouvir seus casos e histórias repletos de lições científicas e de vida. Foi professor nato, por mérito e talento, insubstituível nesta condição. 

Mineiro típico, nascido em Belo Horizonte, veio ao mundo em uma família de notável apreço à arte e cultura. Desde bem cedo transcendeu essas influências manifestando paixão pela vida em todas as suas formas. Em uma época em que a medicina era a principal carreira de investigação biológica ingressou na UFMG. Sua participação marcante na vida acadêmica, já durante a graduação, fizeram dele favorito de mestres já renomados como o professor Liberato DiDio que indicou-lhe a temática de estudo da glândula pineal. Nestes estudos conheceu sua assistente Conceição Ribeiro que se tornaria sua companheira de cátedra e vida com a qual teve quatro filhos (Eduardo, Lúcia, Paulo Augusto e Flávia). 

Sua obra didática mais famosa, e com a qual todos os neurocirurgiões do Brasil (e alguns espalhados por todo o mundo) tem débito, o livro Neuroanatomia Funcional, mantém-se há não menos que cinco décadas como referência de maior uso e reconhecimento em escolas de ciências da saúde no país. E ela em nada supera, como o professor fazia questão de ressaltar, seus outros quase 50 livros publicados, peças de teatro, contos e esquetes. 

Apesar da extensa produção científica o professor Ângelo Machado nunca coube em um laboratório. É famosa sua atividade em campo, suas viagens pelo interior do Brasil, expedições à Floresta Amazônica, aprendizado e respeito a culturas sertaneja, indígena e quilombola. Fruto destes tempos de trabalho formou a maior coleção de libélulas do mundo que teve a generosidade de compartilhar com a Universidade Federal de Minas Gerais, hoje sua mantenedora. 

Além do legado editorial e didático deixa o tradicional Show Medicina do qual sempre será Oscarverado Supremo. No teatro cativou todos com humor e delicadeza sabendo falar às crianças e adultos com a mesma consideração. 

Suas dezenas de milhares de discípulos ficam hoje de coração partido, mas nunca tristes, de fato, pois tiveram a distinta honra de aprender ciência através de sua arte que eternamente se fará repetida em alto e bom som.