Qualidade de vida no trabalho e expectativa de vida do neurocirurgião

Os brasileiros têm passado por período duradouro de crise financeira (dentre outras) que tem o potencial de criar certo desalento a todos. Não bastasse a crise, o controle do trabalho pelo Estado e por grandes corporações produziu uma desvalorização progressiva do valor agregado ao trabalho.

No entanto, outros fatores têm sido considerados tão importantes ao ser humano quanto o que se ganha no trabalho. Um deles, que tem recebido atenção nos últimos tempos é a qualidade de vida no trabalho (QVT). Em 2008, foi estudada a QVT de 57 neurocirurgiões da maioria dos serviços de emergência do Município de São Paulo.

Os domínios avaliados foram: compensação justa e adequada; condições de trabalho; uso e desenvolvimento de capacidade; oportunidade de crescimento e segurança; integração social na organização; constitucionalismo; o trabalho e o espaço total de vida; e a relevância social do trabalho na vida.

A avaliação revelou fortes tendências negativas na maioria dos domínios. Essas respostas permitem a identificação de locais mais ou menos adequados para o desenvolvimento dos domínios relativos à QVT dos neurocirurgiões. A melhoria da percepção da QVT implica que sejam tratados os domínios de forte tendência negativa com políticas adequadas e reforçadas as tendências positivas. Estudos da percepção da qualidade de vida no trabalho permitem estimar a percepção de uma classe profissional inteira, identificar desequilíbrios específicos e proporcionar políticas de desenvolvimento profissional e devem ser estimulados a serem replicados em todos os locais.

Relacionado ao trabalho, um outro tipo de linha de pesquisa, embora incipiente e pouco frequentemente relatada, tem aparecido: estudo da expectativa de vida de médicos e, ultimamente, de neurocirurgiões.

A expectativa ou esperança de vida (EV) refere-se ao número de anos que se espera que um indivíduo sobreviva. Ênfase é frequentemente colocada sobre a relação entre EV e as condições em que vive uma população. Poucos estudos têm investigado a relação entre os fatores de estresse associados a profissões específicas e seus efeitos sobre a EV.

Outro estudo avaliou a expectativa de vida dos neurocirurgiões brasileiros e a comparou com a de médicos (brasileiros e estrangeiros) de outras áreas, bem como com não-médicos brasileiros. O registro de óbitos da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) foi utilizado. Cinquenta e um neurocirurgiões morreram entre 2009 e 2016. Todos eram do gênero masculino. A média de idade ao morrer foi de 68,31 ± 17,71 anos. Entre todas as causas de mortalidade, 20% foi causada por doenças cardiovasculares, 39% de malignidades (câncer), 10% de fatores externos, 6% de distúrbios gastrointestinais, 12% de doenças neurológicas e 14% de causas desconhecidas.

A EV do neurocirurgião foi menor que a EV de brasileiros masculinos. Evidentemente que mais pesquisas são necessárias para fornecer dados que possam adicionar e confirmar esses resultados. Os resultados foram muito semelhantes ao estudo de mortalidade de médicos no estado de São Paulo. Estes dados sugerem que mais um desafio da sociedade Brasileira e dos colegas neurocirurgiões deve ser o de monitorar a qualidade de vida no trabalho e a expectativa de vida da especialidade para podermos melhorar a prática daqui pra frente.

Fontes:

  1. Silva AS et al. Percepção da qualidade de vida no trabalho dos neurocirurgiões em São Paulo. Arq Bras Neurocir 30(2): 60-65, 201
  2. Botelho RV, Jardim Miranda BC, Nishikuni K, Waisberg J.Life Expectancy of Brazilian Neurosurgeons. World Neurosurg. 2018 Jun;114:e857-e860. doi: 10.1016/j.wneu.2018.03.100.
  3. Estudo da mortalidade dos médicos no estado de São Paulo: Tendências de uma década (2000-2009) – Disponível em PDF. Acessado em 01/08/2018.