“A evolução do conhecimento” por Dr. João Luiz Pinheiro Franco

Das razões do Homo sapiens ser quem é até o tempo high-tech de transmissão de conhecimento via NeuroWebinar – uma curta história.

O que é o ser humano, o Homo sapiens? O que nos faz tão especiais, quase divinos, por que somos diferentes dos outros seres vivos? Nós fazemos parte da classificação de seres vivos de Linneu em gênero Homo e espécie sapiens.  Mas por que achamos que estamos tão acima dos outros?

A transmissão do conhecimento pode ser vista como uma das razões para sermos quem somos. Explico uma das teorias.  Vamos voltar um pouco no tempo.

Há alguns milhões de anos atrás, no sudeste do continente africano, mais precisamente na região da Etiópia:  os ancestrais pré-humanos viviam de forma arborícola, e sua estrutura anatômica era adaptada para tal tipo de vida, com braços fortes, pernas mais curtas. A geologia da região sofreu alterações e as alterações da geologia, provindas entre outras razões, a partir de movimentos das placas tectônicas, acaba por criar montanhas, vales, e isso muda o clima. O clima, naquela região de floresta densa do sudeste africano, passa de úmido a mais seco. O clima determina mudança na vegetação. A paisagem se abre. A floresta densa dá lugar à paisagem aberta, com menos árvores, mais arbustos. O ancestral primitivo é obrigado, pela imposição da natureza, a ir ao chão. E, indo ao chão, ao longo de milhares e milhares de anos, a seleção natural de Charles Darwin começa a se impor. E o ancestral primitivo quer se levantar, quer se colocar em pé para ver ao longe. Ver ao longe, em pé, significa antecipar a chegada do predador, significa surpreender a presa, significa ficar maior.

Assim, ao longo de milhares e milhares de anos, aquela coluna vertebral com um grande “C”, em cifose, da cervical à lombar, vai ganhando uma nova curva, a lordose lombar. Sim, a famosa lordose. A lordose se desenvolve e aquele ancestral primitivo que adquire essa curva invertida da cifose consegue ficar em pé, de forma mais estável, ou menos instável, mais equilibrada. O ancestral primitivo busca um equilíbrio de seu corpo no plano sagital que o permita ficar em pé e desfrutar das vantagens de ficar em pé. O ancestral busca o equilíbrio sagital (este tema que tanto gosto e que será título de meu próximo livro a ser lançado em 2019 em New York pela editora Thieme) de sua coluna. Ele busca o equilíbrio sagital de seu corpo. O ancestral primitivo quer ficar em pé.

No início, a bipedia, como nós conhecemos hoje, não era estável. Como tudo na vida, ela sofreu uma evolução. A nossa estrutura inteira do corpo começa a mudar, a se adaptar, para poder ficar em pé. A bacia muda. A coluna muda. O forame magno, no ancestral primitivo, localizado mais posteriormente na base do crânio, migra, ao longo de milhares e milhares de anos, mais anteriormente, mais para a frente, menos posterior, na base do crânio, para que a coluna cervical possa sustentar em melhor situação de equilíbrio, a cabeça.

Essas alterações, remodelamentos, na base do crânio, acabam por deslocar, ao longo dos milhares e milhares de anos, a laringe para baixo no pescoço e esse deslocamento anatômico da laringe acabou por criar condições ótimas de funcionamento de uma fantástica caixa de ressonância que produzia a voz. E a vocalização pôde evoluir, e com ela temos a pré-história da transmissão do conhecimento.

O cachorro que nasce hoje, nasce e evolui “quase” com o mesmo conhecimento de um cachorro que nasceu há 100.000 anos. Já o Homo sapiens que nasce hoje adquire, ao longo do tempo, dos anos, pela transmissão de conhecimento que a voz permite, muito mais conhecimento que o ser humano de há 100.000 anos atrás, e o conhecimento é cumulativo, e isso aumenta cada vez mais…

E assim, pela evolução natural, nosso cérebro continuará a crescer, nossa cabeça será cada vez maior, nosso pescoço mais forte e nossas pernas mais longas. E com a cabeça maior, alguém já se perguntou porque o bebê humano nasce tão “incapaz” em relação ao bebê de um outro mamífero, que nasce e já sai andando? Nossa cabeça, simplesmente, cresceu tanto que não passava mais pelo canal de parto; assim, o bebê humano foi obrigado, pela evolução, pelo aumento do tamanho de seu cérebro, a nascer “prematuro” com 9 meses. Assim, somos todos “prematuros”.

Da pré-história da transmissão do conhecimento ao NeuroWebinar

 Há cerca de 3 ou 4 anos recebi o convite do então futuro Presidente da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Dr. Ronald Farias, para idealizar e organizar um projeto de conferências on-line da SBN.  A ideia inicial consistiria em ter um evento, uma vez ao mês, e o conferencista convidado viria a São Paulo em determinado local, onde seria montada uma estrutura de estúdio para transmitir ao vivo, “on-line” a sua conferência de atualização sobre algum tópico em neurocirurgia. Reuniões foram feitas, opções mais viáveis de logística foram estudadas e, finalmente, optamos pela utilização da plataforma Adobe para Webinars.  Assim, no início de 2017, nascia o programa NeuroWebinar – Educação sem Fronteiras – da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. A data do 1º. NeuroWebinar foi 22/03/2017 e o conferencista convidado foi Dr. Francinaldo Gomes que apresentou o tema “Finanças para Médicos”. Era um mundo novo, esse da informação à distância, em “real time” e “on-line”.  A Sociedade Brasileira de Neurocirurgia estava, a partir daí, conectada “on-line” e “real time”.

Todos sabemos que existem diversos modelos de ensino, múltiplas formas de transmitir a informação, mas essa forma era nova e percebíamos que era uma forma de unir pessoas, neurocirurgiâs e neurocirurgiões do Brasil inteiro, em um dia qualquer da semana, em sua casa, no consultório ou na Universidade, e o colega de São Paulo podia discutir um assunto relevante em neurocirurgia com o seu colega do Ceará. Literalmente do Oiapoque ao Chuí.  Colegas do nosso Brasil inteiro começaram a participar e foi interessante ver a ativa participação, via “chat” de colegas de todo o país, e até de alguns colegas pelo mundo. Programada a transmissão para acontecer uma vez por mês, Ronald convenceu-me a realizar NeuroWebinars toda semana, toda 4ª Feira, à noite. Assim, com frequência semanal, diversas áreas do conhecimento em nossa especialidade foram cobertas. Às vezes, pensei que estava fazendo um curso de revisão geral em Neurocirurgia, o que é muito bom pois, cada um de nós tem se tornado, cada vez mais, mega-especialista em uma sub-especialidade da Neurocirurgia e acabamos, por mais que tenhamos excelentes noções gerais, desatualizados em outras sub-especialidades.  O tempo passou, e passamos a chamar mais e mais colegas para participarem das discussões.

Mas, o que mais me chamou a atenção nestes dois anos de experiência à frente deste programa de educação sem fronteiras foi ver a alegria sistemática dos colegas, mesmo os mais experientes, e mesmo aqueles bem acostumados aos aplausos nos grandes centros de convenção, falarem, ao final de seu NeuroWebinar,  que estavam muito felizes em ter tido a experiência de participar. Lembro-me claramente da alegria do Dr. Evandro de Oliveira ao final de seu NeuroWebinar, dizendo que estava muito contente com o modelo do programa.  Lembro-me do norte-americano Dr. Alexander Vaccaro, outra estrela de renome mundial, dizer, sorrindo, que tinha gostado muito do NeuroWebinar brasileiro. Apesar de seu caráter sério de ensino, em que os conferencistas sempre se esmeraram em prover as informações mais atualizadas do conhecimento, a modalidade on-line “real time” do NeuroWebinar, em dia de semana, permitiu nestes dois anos um contato quase familiar entre os neurocirurgiões e neurocirurgiãs do Brasil inteiro.  E isto é muito bom. A união é muito boa. É saudável, e “faz a força”. Vejo que seremos inteligentes se nos unirmos e se procurarmos falar a mesma língua, se procurarmos lutar juntos pelos mesmos interesses, que é a Neurocirurgia e nossos pacientes neurocirúrgicos. Cada um de nós sabe o quanto lutou, o quanto deixou de lado para estar onde está. Assim, é muito melhor ver o seu colega como um amigo ou amiga, e não como seu rival. No fim de tudo, somos sim uma grande família e, para mim, particularmente, ver, ouvir e sentir a sincera alegria de cada um dos que participaram de alguma forma deste projeto nestes dois anos foi tremendamente recompensador, e me fez muito bem. Assim, agradeço a todos que participaram, de algum modo, como conferencistas, moderadores, atuantes nas discussões, fazendo perguntas, e ao time do NeuroWebinar, a saber Dr. Ronald, Dr. Alexandre Novicki Francisco, Dra. Mariângela Barbi Gonçalves, a equipe da T.I. Eduardo Lima e Cléber e a incansável Érida, da SBN – obrigado a todos. Vocês colaboraram para fazer minhas quartas-feiras à noite muito ricas, mostrando que todos neurocirurgiões e neurocirurgiâs podem, e devem, sim, caminhar juntos, para o mesmo fim, que é a nossa  Neurocirurgia e os nossos pacientes neurocirúrgicos.  Para concluir, lembro da citação que meu grande ídolo da Neurocirurgia, meu pai, Luiz Fernando Pinheiro Franco, sempre falou, e ainda fala,  há tantos e tantos anos: NATURA NON FACIT SALTUS , do latim:  “A Natureza (a Vida) não se faz de saltos”. Neurocirurgiões e Neurocirurgiãs, vamos continuar progredindo, melhorando sempre,  no sentido da UNIÃO de todos os neurocirurgiões e neurocirurgiãs deste nosso país.

João Luiz Pinheiro Franco

Neurocirurgião – Diretor do Projeto NeuroWebinar da SBN

Editor da seção Spine do jornal World Neurosurgery (2014-)

Membro do Corpo Editorial do jornal SPINE (Phila Pa 1976) (2008-)

Membro do Corpo Editorial do European Spine Journal (2008-)

Membro do Corpo Editorial do Clinical Spine Surgery (2016-)