Liberação da fosfoetanolamina no Brasil aumentou a demanda sobre especialistas envolvidos no tratamento do câncer

A autorização sancionada pelo governo brasileiro da produção e da venda da fosfoetanolamina sintética, a polêmica substância apelidada de “pílula do câncer”, não rompeu apenas com um processo estruturado de avaliação da segurança e da eficácia de medicamentos no Brasil.

Segundo oncologistas e cirurgiões oncológicos ouvidos pelo Medscape, além de transformar a ciência e a medicina do país em alvo de piada internacional, o precedente, fomentado pela ampla divulgação nos meios de comunicação, está gerando expectativas irreais nos pacientes oncológicos, afirmam.

Além das demandas naturais de um conjunto de doenças complexas como o câncer, especialistas contam que precisam intensificar o trabalho de informação sobre a substância – cuja eficácia, dosagem e toxicidade em humanos segue desconhecida até que os estudos clínicos propostos por alguns centros de pesquisa brasileiros sejam concluídos.

Questionados diariamente por seus pacientes sobre a fosfoetanolamina, e orientados pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) a não prescreverem o produto – decisão com a qual todos os entrevistados concordam – os médicos contaram ao Medscape que é preciso um trabalho de formiguinha, com muita conversa, para convencer os pacientes de que “pílula do câncer” ou “fosfo” não é o milagre propagandeado nas redes sociais. Recordando o exemplo da talidomida, que produziu uma geração de crianças brasileiras com focomelia, especialistas avaliaram a decisão como política, precipitada, equivocada e perigosa, mesmo para quem já não tem possibilidade terapêutica. Leia a seguir o que sete médicos que atuam no tratamento do câncer dizem sobre o tema:

Dr. Nelson Teich (RJ), oncologista e presidente do Grupo COI 

“É uma decisão política e populista que quebra um processo estruturado de avaliação de medicamentos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: você, como médico, está lá para orientar o paciente. Se ele quer fazer uso da substância é um direito dele. O que me preocupa é que somos um país pobre, no qual a Saúde não é uma prioridade governamental. Usar algo que não tem comprovação científica é uma escolha individual. O que não acho justo é onerar o sistema público de saúde querendo que o governo distribua a substância. Se o paciente quiser ele tem direito de usar, mas deve pagar por ela com recursos próprios.”

Dr. Florentino Cardoso (CE), cirurgião oncológico e presidente da AMB

“O que digo aos meus pacientes é: não sabemos qual dose usar, se dá para usar em todos os cânceres, qual a toxicidade, quais os efeitos colaterais, ou seja, não sabemos nada sobre a fosfoetanolamina sintética. Tive pedidos de dois familiares para prescrevê-la e disse não. É natural as pessoas se apegarem a falsas esperanças, mas como médico não prescrever algo que eu não sei se funciona à luz da ciência. Depois que nos posicionamos, via AMB, orientando os médicos a não prescreverem recebemos dezenas de emails, alguns deles muito agressivos, dizendo que os médicos estão protegendo a indústria farmacêutica. Isso não é verdade. Quando um médico prescreve algo, ele se responsabiliza pelo que prescreveu. Como vamos nos responsabilizar por algo cuja eficácia não é conhecida? Nós não queremos tirar a oportunidade de ninguém, mas sem evidências científicas não dá para recomendar.”

Dr. Gustavo Baumgratz (MG), oncologista da Santa Casa de Belo Horizonte e presidente da Sociedade Mineira de Cancerologia 

“Todo dia recebo paciente me pedindo para prescrever a substância. Se um paciente me pede um laudo atestando que ele tem câncer, não posso negar isso a ele porque é um direito. Mas não prescrevo a droga. O pior é quando um paciente com possibilidade terapêutica me pede para usar. Nestes casos, paro tudo e explico, tento convencê-lo a não parar o tratamento convencional. Por enquanto venho conseguindo sucesso, mas é bem complicado, pois você lida com expectativas e crenças. Entre os meus pacientes sem possibilidade terapêutica alguns decidiram tentar a fosfo. Fiquei sabendo pela família de um deles que ele conseguiu uma caixa de pílulas com a substância, tomou por alguns dias e faleceu pouco depois. Dos outros, nenhum voltou ao consultório.”

Dra. Paula Cíntia Machado Sampaio (PA), chefe da Divisão de Oncologia Clínica  do Hospital Universitário João de Barros Barreto, em Belém 

“Já fiz alguns laudos para pacientes que me contaram da intenção de obter a substância, especialmente os pacientes que já estavam em cuidados paliativos. Agora, com a aprovação, eles já chegam pedindo a receita, inclusive os pacientes que atendo pelo SUS. Colegas me contaram que no Hospital Ophir Loyola aqui em Belém diariamente tem paciente no Protocolo do hospital pedindo laudo ou receita para obter a droga. É bem desgastante, mas nosso papel é mais de orientação, pois não há como impedir o uso. Me pergunto quem irá se responsabilizar por essas pessoas. Por enquanto não tive casos de pacientes querendo interromper o tratamento convencional para usar a fosfo. Sei de um caso de um médico que está usando. Ele morre de vergonha de dizer que toma, mas está usando porque já não tem mais possibilidade terapêutica e os irmãos pediram. Ele está tomando há um mês e por enquanto não teve melhora alguma.”

Dr. Gilberto Schwartsmann (RS), chefe do serviço de oncologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, diretor médico do Instituto de Oncologia  Kaplan 

“Aqui não prescrevemos nem damos laudo para obtenção na Justiça pois acreditamos que isso desqualificaria nossos laudos em demandas judiciais por remédios sérios. É preciso saber filtrar o que é medicina séria do resto. Não podemos incorrer no erro de que é preciso estudar o composto porque muita gente já usou. Isso é desperdício de dinheiro e de tempo. Vivemos em um país em que a disputa por verbas para a ciência é acirrada. Trabalhei anos com estudo e desenvolvimento de novas drogas e posso dizer que a fosfoetanolamina sintética não entraria nem na centésima posição na minha lista de prioridades nas quais investir. Quando o uso comum nos dá uma pista, temos uma porta de entrada, mas não podemos pular etapas. Sempre que se pula etapas, paga-se um preço. Vide o exemplo do que ocorreu com a talidomida.”

Dra. Mariana Laloni (SP), oncologista do Centro Paulista de Oncologia e do Hospital Paulistano 

“Vender a esperança de que essa substância pode ter algum benefício é cruel, mesmo para quem está em fases mais avançadas da doença. O câncer é um conjunto de doenças heterogêneas com evoluções biológicas que variam de acordo com fatores individuais. Algumas pessoas vivem mais tempo mesmo sem chances de cura e não sabemos como a fosfoetanolamina pode interferir nessa evolução. Tenho uma paciente que apareceu no meu consultório depois de ter parado com a quimio que fazia com outro médico para usar a substância. Ela ficou quatro meses tentando obter o produto e nesse período teve uma piora considerável. Voltamos com o tratamento convencional e ela está melhorando. Se ela tivesse conseguido o produto para tomar talvez não tivesse dado tempo de tratar.”

Dra. Clarissa Baldotto (RJ), oncologista do Grupo COI

“Trabalho com cânceres de pulmão e cérebro, áreas ainda com muitos limites terapêuticos e 80% dos meus pacientes em algum momento já vieram perguntar sobre a fosfoetanolamina sintética. Não prescrevo, explico os riscos e cito o exemplo da talidomida para expor os riscos de usar algo que pulou etapas de avaliação sobre eficácia, dosagem, toxicidade e efeitos colaterais. Tive paciente que usou, tenho pacientes que estão usando, mas sem abandonar o tratamento. Não vou deixar de tratar o paciente, mas deixo claro que não tenho como garantir que o uso do produto não vai interferir no tratamento quimioterápico. A verdade é que hoje não temos como saber isso.”

Fonte: Medscape Brasil

Imagem: Divulgação Globo

Para cientistas, riscos associados ao Zika são maiores do que se pensava

Segundo especialistas ouvidos pela BBC, o vírus pode estar por trás de ainda mais danos às funções neurológicas e afetar os bebês de até um quinto das mulheres infectadas.

Apesar de as taxas de avanço do contágio terem diminuído em algumas partes do país, graças a mais informações sobre prevenção, a busca por uma vacina está ainda no estágio inicial. Além disso, o Zika continua a se espalhar pelo continente.

A maioria dos médicos e pesquisadores (bem como o Ministério da Saúde brasileiro e a agência de prevenção a doenças dos EUA) concorda que há uma ligação entre o vírus e a microcefalia, condição que prejudica o desenvolvimento do cérebro e faz com que bebês nasçam com a cabeça menor que o normal.

Embora estimativas (obtidas a partir de um estudo na Polinésia Francesa) apontem que 1% das mulheres infectadas durante a gravidez terão bebês com microcefalia, alguns dos principais cientistas envolvidos nas investigações sobre a doença no Brasil estimaram à BBC que até 20% das gestações afetadas podem resultar em vários dos outros tipos de danos ao cérebro.

Um estudo separado, publicado pelo periódico científico New England Journal of Medicine, aponta que “29% dos exames mostraram anormalidades em bebês no útero, incluindo restrições ao crescimento, em mulheres infectadas pelo Zika”.

“Nossas descobertas são preocupantes, pois 29% dos ultrassons mostraram anormalidades, incluindo restrições ao crescimento intrauterino e morte do feto, em mulheres com resultados positivos para infecção pelo Zika”, diz a pesquisa.

Um dos problemas é que muitos dos males que médicos brasileiros têm notado em bebês de mães que tiveram Zika não são tão óbvios quanto a microcefalia. São más-formações que até podem não ter o mesmo impacto no desenvolvimento da criança, mas que estão ocorrendo com uma frequência alarmante.

“Há calcificações no cérebro, um aumento no número das dilatações nos ventrículos cerebrais e a destruição ou má-formação da parte posterior do cérebro”, afirma Renato Sá, obstetra que trabalha em hospitais públicos e privados do Rio de Janeiro.

Ele lista uma série de problemas que vem encontrando com uma crescente regularidade: ventriculomegalia (aumento dos ventrículos cerebrais), danos à fossa posterior do crânio, craniossinostose (fechamento prematuro das suturas craniais, fazendo com que a cabeça se desenvolva da maneira errada) e calcificação cerebral.

O médico inclui uma preocupação adicional: geralmente não há um vestígio óbvio ou sintoma do dano neurológico até as checagens mais tardias do desenvolvimento do bebê, apenas “talvez convulsões ou outros sinais indicadores”.

‘Atônitos’

Há uma necessidade urgente de se entender mais sobre a Zika e desenvolver uma vacina.

Os laboratórios do Instituto D’Or, no Rio, estão usando células-tronco para criar tecidos que se desenvolvem como o cérebro humano. Chamados de “minicérebros”, esses tecidos são depois infectados com Zika.

“O que nós observamos é que o Zika vírus é capaz de matar células e de afetar o crescimento delas”, diz o neurocientista Stevens Rehen, um dos responsáveis pela unidade.

O especialista também observou, assim como outros pesquisadores, que há algo particularmente violento na cepa do vírus que chegou ao Brasil e está se espalhando pelo continente.

“Há algo no Zika que o torna mais inclinado a matar células cerebrais em desenvolvimento. Agora nós precisamos pesquisar e entender o que faz esse vírus ser mais agressivo para o cérebro em desenvolvimento.”

A equipe está espantada com o que já descobriu: uma grande redução do crescimento do córtex, a camada externa do cérebro.

“Os efeitos são muito impressionantes”, afirma a pesquisadora Patricia Garcez. “Estamos todos atônitos com a rapidez. Vimos células morrerem em três dias, um número grande delas. Em seis dias, as neuroesferas (conjunto de células-tronco cerebrais) haviam morrido completamente.”

Realidades

Diferentemente de meses atrás, as áreas com maior infecção pelo Zika estão agora mais ao sul do país, principalmente no Rio de Janeiro.

Entre alguns setores da sociedade, campanhas públicas sobre a necessidade de usar repelentes e tomar outras precauções aparentemente estão tendo um impacto positivo.

Segundo o obstetra Renato Sá, do Rio de Janeiro, o número de casos de Zika entre grávidas de classe média caiu bruscamente, assim como os de microcefalia e outras condições similares.

Exemplo de uma outra realidade, Fabiane Lopes, mãe de quatro filhos, conversou com a BBC em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Seu parceiro a abandonou quando ela descobriu que a mais nova nasceria com microcefalia.

Embora enfrente uma situação difícil – ela vive em uma casa de um quarto e depende de benefícios do governo –, Lopes demonstra calma. E ela precisa estar assim: hoje com quatro meses de idade, Valentina demanda muito amor, atenção e terapia.

“Nós não vimos campanhas contra o Zika por aqui”, conta, mostrando como as mensagens do governo sobre a doença não estão chegando a todos. Ela relata nunca ter usado repelentes e que não tomou outras precauções durante a gestação.

É uma mãe que claramente ama seu bebê; seus outros filhos a ajudam com as tarefas que caberiam ao pai ausente.

Sua casa é o retrato de uma família e de um país que ainda estão aprendendo o quão devastadores são o Zika vírus e suas consequências.

Fonte: BBC Brasil

Imagem: BBC

Aumento gradual de depressão ‘pode prever risco de demência’

Sintomas de depressão que aumentam de maneira estável e gradual ao longo do tempo quando se está em uma idade avançada podem indicar sinais iniciais de uma doença que tem se tornado cada vez mais comum entre idosos: a demência – que tem sua forma mais conhecida como o mal de Alzheimer.

A conclusão é de um estudo feito na Holanda e divulgado na publicação científica The Lancet Psychiatry. A pesquisa envolveu análises com mais de 3 mil adultos com idade de 55 anos ou mais e que moram no país.

Os pesquisadores buscavam padrões para entender os diferentes tipos de depressão em adultos mais velhos, como a doença progredia ao longo do tempo e como ela poderia estar relacionada ao deselvolvimento da demência.

A conclusão foi que quando a doença está evoluindo gradualmente ao longo do tempo e com certa estabilidade, isso pode significar um risco maior para o desenvolvimento da demência no futuro.

Em casos de depressão crônica, a ligação com a demência não conseguiu ser comprovada neste estudo.

Entre os adultos acima de 55 anos que participaram do estudo, todos tinham depressão, mas não apresentavam nenhum sintoma de demência no início da pesquisa.

Segundo Arfan Ikram, um dos autores do estudo da Universidade de Medicina Erasmus em Roterdã, os sintomas de depressão que aumentam gradualmente com o tempo são um bom indicativo para prever a demência.

“Existem vários tipos de explicação que podem ser dadas para isso, incluindo o fato de que a depressão e a demência podem ser sintomas de uma causa em comum, ou que os sintomas de depressão aumentanto gradualmente significam o início de uma demência contínua em adultos mais velhos”, disse ele.

Cerca de um em cada cinco participantes que apresentavam sintomas graduais de depressão desenvolveram demência ao longo do tempo (55 de 255).

Nos pacientes que apresentavam níveis baixos, mas estáveis, de depressão, cerca de 10% desenvolveram a doença.

Estratégias de prevenção?

Como exatamente a depressão pode influenciar no risco do desenvolvimento de demência é algo que ainda é desconhecido.

As duas doenças, muitas vezes, acontecem juntas, mas o estudo holandês está entre os primeiros a analisarem os diferentes padrões de sintomas de depressão relacionados à demência.

No entanto, para Simone Reppermund, do Centreo de Saúde para Envelhecimento do Cérebro da Universidade de New South Wales, em Sidney, são necessários mais estudos para entender exatamente qual é a relação das duas doenças.

“O foco em fatores do estilo de vida, como atividades físicas e relações sociais, além de outros fatores biológicos de risco, como doenças vasculares, neuroinflamações, concentração de estresse e outras mudanças neuropatológicas podem acelerar a descoberta de novas estratégias de tratamento e prevenção”, afirmou ela na mesma publicação científica em que o estudo foi divulgado.

A depressão é uma doença que varia muito de pessoa para pessoa. Alguns têm sintomas passageiros da doença, outros têm crises mais frequentes e outros ainda estão deprimidos o tempo todo. Para Simon Ridley, diretor do Centro de Pesquisas sobre Alzheimer no Reino Unido, qualquer pessoa que apresente alguma dessas condições deve procurar ajuda imediata.

“O estudo sugere que níveis baixos de depressão ou sintomas mais variáveis podem não representar o aumento do risco de demência, mas uma piora dos sintomas quando se tem mais de 55 anos pode ser um indicador inicial de doenças como o Alzheimer.”

“É importante lembrar que apenas um número pequeno de pessoas que tinham depressão desenvolveu demência durante os 11 anos de estudo. Mas qualquer um que esteja preocupado com sua condição pode falar com seu médico.”

Fonte: BBC

Imagem: Thinkstock